Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015

Lua Vermelha – 3ªtemporada - Episódio 51 – “Your Memories”

 

Continuação…

 

A memória é como um sonho. Intocável. Ou como um pesadelo. Demasiado real e angustiante. E, muitas vezes, é a memória que nos define.

 

Aquele jeito convicto e malévolo com que vampiro desliza lentamente a lâmina do punhal, que outrora pertencia a Jaguar, rasgando levemente a pele do seu pescoço…

 

Instantaneamente, numa crueldade inevitável do próprio ser, os gritos dela invadem-lhe o pensamento, assim como o desolador instante em que a viu cair aos pés de Joseph, sem vida, consumida pela frieza da morte…

 

 

Mary Jane era doce, amável, inocente, ainda assim uma vampira. Morreu porque conquistou o amor de Alphonzo. - Joseph não suportou ver os seus planos destruídos, mais uma vez, pelos planos idiotas de um amor incondicional. - Mary Jane era uma das suas melhores criações e Alphonzo roubou-a. Após isso, Joseph já não sentia que Mary Jane poderia realmente ser leal ao que viria a organizar para ela.

 

 

Afonso demorou anos para conseguir controlar o ódio e a tristeza. Tais imagens de uma morte causada impiedosamente e sem justificações aceitáveis – se é que uma morte é alguma vez moralmente aceitável!... -, não lhe saíam do pensamento e magoavam-lhe a alma.

 

No entanto, não é exactamente essa a memória que Joseph pretende recuperar dos mais profundos confins da consciência de Alphonzo.

 

Expressando imediatamente uma intensa raiva no olhar e um tamanho desespero que pensava já ter sob controlo há muito tempo, Afonso parece adivinhar que a memória reavivada da morte de Mary Jane, é apenas e só um pretexto bem aproveitado por Joseph para chegar às outras mortes

 

Outras mortes… Também inacreditavelmente causadas por Alphonzo. O velho e descontrolado, impiedoso e infeliz Alphonzo Stuart. – Afonso lutou tanto contra esse seu próprio ser, e agora…

 

- Indeed, what I did to your beloved Mary Jane, which was because of you, was nothing comparing to what you did with all those innocent humans… - o vampiro introduz o verdadeiro assunto que tem ali para tratar, finalmente, tão pouco consciente da maldade, tão fatal no seu inglês perfeito. - Have you ever told your family about your past…? How many you killed? How many innocent human lives you take? – Joseph sorri sem vontade, apenas por provocação, segurando-lhe os cabelos com cada vez mais força e mantendo o punhal no seu pescoço.

 

O esforço de Joseph por conseguir o que quer, - o sofrimento constante e interminável daquele desgraçado – é notável. Sem dúvida que, mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos empenho, as suas expectativas serão correspondidas.

 

Afonso luta contra si mesmo.

 

Os pensamentos são incontroláveis e as memórias, quando mencionadas, são impossíveis de manter fora de alcance.

 

Mesmo assim, o jovem não pensa desistir. As consequências poderão ser devastadoras para todos, caso as suas recordações de um passado intolerável regressem e o deixem tal como aquele vampiro miserável pretende, fora de controlo…

 

Arrepende-se furtivamente de ter algum dia construído no passado tais memórias. Se houvesse alguma forma de apagar tudo…

 

Enquanto Afonso tenta concentrar-se em manter-se abstraído do ambiente e do momento, Joseph continua a falar. Por mais que se esforce, é totalmente impossível não ouvir as palavras do vampiro, e não recordar os nomes, as caras, as pessoas…

 

Afonso experimenta então trocar culpa e arrependimento por ódio. – Ódio a Joseph e à sua tentativa, ainda não fracassada, de o separar da família, de lhe tirar a família… - Depois, a necessidade, a vontade de saltar dali imediatamente, libertar-se brutalmente daquelas correntes, respirar ar puro, ver o brilho do sol e sentir a energia mística da Lua, recuperando forças e acabando com o problema de uma vez por todas, matando Joseph… Matando-o… Tal como fez com aquelas vidas inocentes, quando nada mais havia para viver, quando o amor parecia ter acabado no mundo e a sua existência não fosse mais que uma monstruosidade fatal às suas vítimas… Essa vontade, é destruída pela capacidade de se afastar do que é mau, e sabe que é mau…

 

- Eles não eram assim tão inocentes… - murmura Afonso, com uma voz pesada e um olhar novamente dirigido a Joseph. – Posso ter morto dezenas de inocentes, mas foram muitos mais os que salvei! – impõe, empenhando-se em demonstrar confiança e razão.

 

Joseph lança uma gargalhada sinistra, fazendo-a acompanhar-se por um olhar cheio de uma pena repugnante, afastando o punhal do pescoço do prisioneiro e soltando-lhe os cabelos.

 

- Tem piada! – garante, ainda a rir contagiosamente. - Essa é a desculpa que todos os assassinos pobres de espírito e afogados em remorsos usam! – a sua mudança repentina para o idioma português, sugere tão simplesmente a proximidade enfadonha, e ainda assim elegante, que Joseph pretende ter em relação a Jaguar, em relação a Isabel, portanto.

 

Afonso amolece, sem forças, deixando que o seu rosto encare o chão.

 

Por mais que evite, Afonso não consegue deixar de repetir mentalmente a palavra “assassino” na sua mente, aceitando-a como verdadeira em relação a si. – Não! Não! Não! – Repete agora, obrigando a que a sua consciência se mantenha firme. – O que será se elas souberem… Eu não posso! Não sou um assassino! Não! Não! Não!

 

Mas Joseph é demasiado teimoso, persistente nos seus objetivos…

 

- Quantos foram antes da bela Mary Jane? – questiona, manobrando o punhal de prata, místico. – E quantos depois? – insiste, abaixando-se perante o rapaz e reerguendo-lhe o rosto para si. – How many? – aquele sotaque fatal, novamente.

 

Afonso não responde. Aparentemente indiferente. Realmente afectado, recordando todos. Um por um.

 

- You took Mary from me, and I couldn’t protect and train someone who wasn’t mine anymore… - o vampiro sabe bem o efeito que aquele seu idioma natural e a conversa feita pode vir a ter.

 

Com Mary Jane, novamente, no seu pensamento, Afonso precisa de, no mínimo, defender a integridade da falecida.

 

- Ela não te pertencia… - responde necessariamente, com todas as suas forças concentradas numa voz trémula, repleta de razão, mas sem forma para a transmitir. – Ninguém aqui te pertence! – atreve-se a provocar.

 

Instantaneamente, consequência das palavras ousadas que ouviu, uma ansiedade percorre-lhe o corpo. Joseph é desafiado pelo confronto inevitável entre o que deseja e a incerteza de o vir ter. Ódio é tudo o que lhe surge no olhar. Pena é o que não sente por Alphonzo. – Ele teve tudo. Alphonzo teve tudo o que um dia Joseph desejou ter.

 

Tomado por uma acção impensada, Joseph aperta bruscamente o punhal de Jaguar na sua mão, protegida por uma luva preta, e numa fracção de nada dirige-o ao peito de Alphonzo.

 

O vampiro, para mal do seu cada vez mais crescente ódio, sabe muito bem que Alphonzo não morrerá. Nem que meia dúzia de punhais de prata como aquele, o firam com a mesma violência.

 

Mas Alphonzo, não importa o quão diferente e protegido pela natureza seja, é um ser deste planeta e, como tal, pode ser tão adequadamente frágil como todos os outros.

 

Sangue começa a jorrar-lhe pelo peito. A t-shirt é manchada por um vermelho vivo. – É só mais um ser vivo! – Um grito arquejante de dor ecoa com toda a força dos seus pulmões. – E sofre como todos os outros!

 

Joseph pode não ter a honra de matar Alphonzo. Mas terá o prazer de o torturar por uma eternidade.

 

Continua…

 

[Boa Noite! - Gostaram? - BREVEMENTE: EPISÓDIO 52 - "Amor e Consequências" - Curiosos?

Bjs <3 a autora]

Publicado por luaverm2e3temporada às 21:28
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