Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015

Lua Vermelha – 3ªtemporada - Episódio 54 – “Estou a alucinar…”

Continuação…

 

Se fosse realmente possível descrever a postura de Isabel perante a situação, dir-se-ia que, pela primeira vez, ódio e necessidade de pôr fim a alguma coisa, eram as únicas coisas que lhe passavam pela ideia. Mas a sua expressão é demasiado anormal e inexplicável para ser descrita a preceito.

 

Um movimento selvagem de alguém que ela supõe rondar nas traseiras de sua casa, entre a floresta que a rodeia, quase lhe teria roubado a atenção, caso esta não estivesse centrada nos rostos estupidamente surpreendidos que se deparam na sua frente, acabados de sair de um carro demasiado luxuoso nos tempos que correm, para alguém que acaba de sair da prisão.

 

- Isabel, minha querida… – aproxima-se ele, tão repleto de falsidade no rosto quanto de inconsciente do perigo que corre.

 

A jovem certamente nunca sentiu tanto ódio e adrenalina unidos na vida como naquele preciso momento, em que encara a verdadeira definição de desamor e traição familiar.

 

 

Visivelmente, Luna parece mais calma. Deitada no sofá, arde em febre como efeito do seu esforço para não demonstrar, nem muito menos transmitir a dor e o pânico que sente, Luna mantém-se o mais imóvel possível, de olhos fechados, tremendo também, frágil, enquanto afasta o sofrimento de Afonso, o seu pai, naquele lugar escuro que quase consegue ver e presenciar, de tortura, para si mesma.

 

Uma autêntica e indescritível por outros revolução que acontece na sua alma. Beatriz, mesmo ao seu lado, quase consegue senti-lo.

 

Também Mais Antigo consegue supor toda aquela aflição que a jovem carrega no momento.

 

Vasco, por sua vez, preocupa-se em afastar a curiosidade de alguns hóspedes que se manifestaram, juntamente com Francisca, que rapidamente inventou pretextos eficazes para os distrair e arredar dali.

 

Não tão fraca assim que pare de pensar, a jovem tenta, secretamente e sob plena dificuldade, aproveitar-se da sensibilidade que a liga quase diretamente ao pai, num sofrimento mútuo, para tentar, no mínimo, perceber o quão perto ou longe ele está, e no máximo, localizá-lo. Quase ouve na íntegra a voz e o sotaque de uma elegância malévola de Joseph. Por pouco que não descobre… Quase! Tem de haver algo especial que protege aquele sítio. Não há outra explicação! Algo que tem de ultrapassar, que sente conseguir ultrapassar, mas que não faz ideia como…

 

- Isabel… - murmura Beatriz manifestando o seu pensamento, a única que finalmente percebe o quão suspeita é a ausência de Isabel, faz tempo.

 

- Ela saiu depois de… - começa Mais Antigo ao ouvir a vampira, entendendo imediatamente o quão preocupante é a sua ausência, efectivamente.

 

Numa urgência tremenda e imediata, Beatriz salta do lado de Luna, entregando o pano molhado de água fria com que lhe limpava a testa ao líder supremo dos vampiros, nem sequer necessitando de explicar a sua saída relâmpago.

 

Sem também se atrever a perder tempo de a questionar pelo óbvio, Mais Antigo ocupa o lugar deixado, ao lado de Luna, sentando-se no sofá e murmurando algo que sabe que ela ouvirá, com uma generosidade pura na voz.

 

- Vai ficar tudo bem…

 

 

Alphonzo já nem está a demonstrar quaisquer sinais de alguma necessidade, de sofrimento, de força de vontade, de luta… O próprio, nunca pensou ser possível sentir aquele calor familiar tão realístico, na loucura. É realmente insano! Mas bom…

 

Joseph procede, praticamente já se congratulando vitorioso, num discurso maligno pautado pelos nomes de quem Alphonzo um dia fez suas vítimas, insistindo sempre na provocação do seu inglês perfeito. Por cada nome que profere, ataca o jovem prisioneiro dos seus caprichos com um golpe à altura de o fazer recordar com pormenor aquilo que fez com cada uma das suas vítimas, não tão inocentes como considera.

 

Completamente sujo, despenteado, com o rosto coberto de lágrimas que se confundem com o suor da tortura que vai aceitando, roupa encharcada do encarnado vivo do seu sangue, Alphonzo quase suscita um sentimento de pena no vampiro.

 

E, é nesse mesmo instante, que Joseph lança o seu último golpe. Um golpe deveras mais doloroso que todos os outros, uma tortura psicológica, num português cuidado que remete às origens do amor da vida de Alphonzo, a descendente directa de Jaguar.

 

- É este o teu destino! A desesperança! – sussurra, com malícia no tom. - O destino que qualquer assassino impiedoso como tu merece, Alphonzo Stuart! – termina, já em pé, superior, ao mesmo tempo que vai abrindo a porta do cubículo, deixando entrar a escuridão luminosa do crepúsculo.

 

 

«Incluindo tu, cobarde!»

 

O pensamento de Henrique é bem perceptível pela sua expressão, quando ouve claramente as palavras de Joseph, supondo que finalmente ele sai do local onde acredita, já com toda a certeza, que está Afonso. Apenas não entende como aquelas palavras se relacionam som o seu “irmão”. Afonso nunca matou ninguém… Ou matou? Talvez isso não importe.

 

- Isto é uma loucura… - comenta Victorius, próximo de inaudível, apenas para os companheiros.

 

- Neste lugar, tudo é uma loucura! – esclarece Jasmine imediatamente, repleta de razão, igualmente num murmúrio pouco perceptível.

 

O grupo organizou-se rapidamente e, por solidariedade e necessidade recíproca de agir contra ou a favor de qualquer coisa, concordaram imediatamente em sair em auxílio de Henrique, após o pedido de Jasmine.

 

Sandro posiciona-se na vigia, com visão directa para o casebre de madeira, sentado num dos bancos de jardim junto à casa, pretextando ler um livro – um dos muitos que encontrou na biblioteca lá do sitio sobre a história gloriosa da Luz Eterna e as biografias quase completas de todos os Jaguar. Assustador.

 

André, apanhado desprevenido no imprevisto do momento, foi induzido quase por ameaça a ser cúmplice do grupo, como prova de verdade, distraindo Joseph por qualquer motivo que lhe viesse à cabeça e fizesse valer a atenção do inglês, enquanto a acção propriamente dita decorria.

 

Noutra posição, está Akira, também de vigia, garantindo que, a partir da casa, ninguém os vê movimentar-se, deixando-se passear aparentemente desinteressado no relvado envolta da mansão.

 

Os restantes, Henrique, Jasmine, Brian e Victorius, relativamente perto uns dos outros mas estrategicamente posicionados para não levantar suspeitas sobre qualquer conspiração, esperam a oportunidade para entrar, fazendo-se parecer melancólicos, pensativos. A noite aproxima-se, o que tornará a situação mais fácil de tornar discreta. Perto da cabana de madeira, mas longe o suficiente, fingem conversar, inventando historias improvisadas, algumas bem mais reais do que suposto, sobre a vida que deixaram para trás, assim que vêm Joseph sair e André partir em direcção a ele, cumprindo a sua obrigação.

 

Notando já Joseph bastante distraído por André e perdido noutros quaisquer pensamentos alheios a ele, talvez por tédio e impaciência, Henrique pronuncia-se em voz baixa, antes que Jasmine parta na sua oportunidade de ir na frente. André e Joseph já no interior do edifício. E o inglês parece nem se ter importado com a presença dos seis ali, sozinhos, na noite, de caminho supostamente livre para qualquer impulso…

 

- Obrigado! – diz, de olhos postos na perspetiva que lhe compete vigiar, audível para os mais próximos.

 

Jasmine parou momentaneamente para o ouvir, acenando em resposta, mas depressa efectuando a parte que lhe compete do plano acabado de preparar, caminhando elegantemente discreta pelo relvado, de mãos nos bolsos, descontraída, sendo a primeira a entrar na cabana.

 

Por confirmação dos companheiros, ninguém a terá visto, como pretendido. Certificando-se de que o cubículo está vazio, avançando por ele adentro, descendo as escadas que dão para os quartos escuros onde se sabe lá quantos foram mantidos presos e porque emotivos, Jasmine começa a assobiar melodicamente, em sinal de que caminho o está livre e se prepara para enfrentar a tal porta!

 

Sob a vigia e proteção de Sandro e Akira, é agora a vez de Henrique, acompanhado de Brian, que segue atrás, entrar naquele sítio insolitamente horrendo.

 

Quando ambos entram, Henrique na frente e Brian mais atrás, por segurança, já Jasmine desvendava umas vistosas luvas vermelhas de veludo, que arranjou de alguma forma dentro daquela enorme mansão e que espera ninguém dar pela falta, procurando a melhor forma de abrir silenciosamente e com perícia de ladrão aquela porta pesada revestida de prata.

 

Jasmine, simpática e discreta, linda, revela-se uma caixinha de talentos pouco dignos honestamente, mas muito úteis de vez a vez, quando engana maliciosamente a fechadura da porta com dois daqueles pequenos ganchos de cabelo, que trazia quando veio para ali.

 

 

Afonso nem se debate contra a loucura que acredita ter caído sobre si. Apercebe-se de um remexer estranho na porta que o separa do mundo, de presenças suspeitamente bondosas pela forma como agem, mas esse perceber confunde-se com o acreditar ser a sua imaginação maldita.

 

 

Luna reage positivamente, mais viva e forte do que estava, quando sente misteriosamente o afastamento de Joseph e a aproximação de auxílio. Abre os olhos de repente, procurando involuntariamente por Beatriz, que já não está ali. O seu olhar é, antes, direcionado a Mais Antigo, que a acalma enquanto a ouve mencionar apenas um nome: Henrique. Acabando por se deixar entregar novamente à calma aparente, mantendo contacto sentimental com o pai.

 

Mais Antigo aconselha-a, transmitindo segurança e razão, enquanto lhe limpa a testa com a toalha.

 

- A melhor forma de sobreviveres a ti mesma reside no auto-controlo! A capacidade de gerir o que sentes é fundamental e só assim conseguirás ajudar também os outros! – começa. – Esta lição serve para todos! Vampiros, humanos, … – termina, num sorriso pleno de confiança.

 

 

A vampira empurra ligeiramente a porta, enquanto esboça um sorriso encantadoramente vitorioso, cedendo espaço a Henrique, para que seja o primeira a entrar.

 

Impulsivo e ansioso, este prepara-se para empurrar bruscamente a porta, querendo uma confirmação rápida de que ali está uma das pessoas de quem mais sente saudades.

 

Brian, sensato no momento, trava-o e, apenas com um olhar de resposta ao ar surpreendido de Henrique, sugere prudência. - Nunca se sabe o que há verdadeiramente do outro lado, ainda por mais quando estão em território movediço.

 

Só então Jasmine acaba de empurrar a porta, protegendo a sua pele com aquelas luvas magníficas que tem pena não serem suas…

 

Henrique dá um passo em frente na escuridão.

 

 

Movimentando-se esforçadamente apenas para sentir o fresco que, repentinamente, acredita que o seu subconsciente imaginou atravessar a porta, Afonso ergue a cabeça, aceitando a dor física com que se depara ao fazê-lo. – Nem sabe há quanto tempo está ali, naquela mesma posição, preso, desidratado, triste, sozinho… - Os seus olhos, pesados, tendendo em fechar, e visão fraca ainda ofuscada por lágrimas, vêm uma sombra parar entre a porta aberta. Uma sombra estupidamente familiar…

 

- É ele? – ouve uma voz feminina perguntar, uma voz bela por sinal, num tom que se perde entre pena e ódio.

 

- Afonso… - confirma aquela voz também familiar, pronunciada pela figura que se depara entre a porta, observando-o.

 

A sua imaginação nunca foi tão boa. A loucura nunca lhe pareceu tão real.

 

Aquela voz. Aquela presença. Afonso não evita, nem controla um sorriso exageradamente irónico, alucinante, que se vai perdendo aos poucos pela falta de forças.

 

- Estou a alucinar…

 

Continua…

Publicado por luaverm2e3temporada às 20:02
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